História do Cangaço no Brasil: Lampião, Seus Comparsas e o Contexto Sócio-Político

 

Lampião e seu bando em foto que integra o livro "Estrelas de couro", de Frederico Pernambucano de Mello Cepe Editora/Divulgação


O cangaço foi um fenômeno social, político e cultural que marcou o sertão nordestino brasileiro entre o final do século XIX e meados do século XX, aproximadamente de 1830 a 1940. Caracterizado por bandos armados que vagavam pela caatinga, o cangaço emergiu como uma resposta às desigualdades sociais, à opressão dos coronéis e à ineficiência do Estado em garantir justiça e ordem no interior do Nordeste. Liderados por figuras carismáticas como Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, os cangaceiros se tornaram símbolos ambíguos: para alguns, heróis que desafiavam a opressão; para outros, criminosos violentos que espalhavam o terror. Este artigo explora a história do cangaço, o papel de Lampião e seus comparsas, os grupos paralelos, as forças militares que os perseguiam, a relação com a população, o contexto político, os locais de atuação, os objetivos dos cangaceiros e a suposta conexão com Padre Cícero Romão Batista, com base em fontes históricas e referências acadêmicas.

Origens e Contexto do Cangaço

O cangaço surgiu em um contexto de extrema desigualdade social e econômica no Nordeste brasileiro, agravado pela transição do Império para a República em 1889. Durante a Primeira República (1889-1930), o poder no sertão era dominado pelos coronéis, grandes latifundiários que exerciam controle político e econômico por meio do coronelismo, uma prática de clientelismo que subordinava a população pobre aos interesses da elite agrária. A seca, um fenômeno recorrente na região, intensificava a miséria, a fome e a instabilidade social, enquanto a ausência de um Estado forte permitia que os coronéis agissem como autoridades paralelas, muitas vezes com violência. Nesse cenário, o cangaço emergiu como uma forma de banditismo social, termo cunhado pelo historiador Eric Hobsbawm para descrever revoltas camponesas contra sistemas opressivos durante a transição para o capitalismo agrário.

Os primeiros registros de cangaceiros datam da década de 1830, com Lucas Evangelista (Lucas da Feira), que atuava em Feira de Santana, Bahia, até ser capturado em 1848. Outro líder inicial foi Jesuíno Brilhante, ativo na década de 1870 entre Paraíba e Rio Grande do Norte. No entanto, foi no início do século XX, com o fortalecimento do coronelismo e a consolidação da República, que o cangaço ganhou maior organização e impacto, especialmente sob a liderança de Lampião.

Lampião e Seus Comparsas

Virgulino Ferreira da Silva, nascido em 7 de julho de 1897 em Serra Talhada, Pernambuco, tornou-se o cangaceiro mais famoso da história brasileira, conhecido como o “Rei do Cangaço”. Filho de uma família de classe média rural, Virgulino entrou para o cangaço em 1915, motivado por vingança após a morte de seu pai, José Ferreira, em 1921, em um conflito com a família Saturnino, ligada à oligarquia local. Sua habilidade com armas, incluindo a capacidade de atirar rapidamente, rendeu-lhe o apelido “Lampião”, uma referência à iluminação causada pelos disparos noturnos. Em 1921, ele integrou o bando de Sinhô Pereira, assumindo a liderança em 1922, quando Pereira abandonou o cangaço.

Lampião liderou um bando altamente organizado, composto por homens e, posteriormente, mulheres, como Maria Bonita (Maria Gomes de Oliveira), sua companheira e a primeira mulher a integrar um grupo cangaceiro em 1930. Maria Bonita, nascida em 1911 na Bahia, tornou-se a “Rainha do Cangaço”, um ícone de coragem e quebra de papéis tradicionais de gênero, embora sua participação fosse mais simbólica, focada em acompanhar Lampião. Outros membros notáveis incluíam Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto), conhecido como “Diabo Loiro” por sua violência, e jovens como Volta Seca, de apenas 11 anos, demonstrando a diversidade etária e social do bando.

Os cangaceiros eram conhecidos por suas vestimentas de couro, chapéus adornados e armas como espingardas, revólveres e facas peixeiras, que os protegiam da caatinga e das perseguições policiais. Eles carregavam apetrechos pesados, como munições e alimentos, o que deu origem ao termo “cangaço”, derivado de “canga”, a peça de madeira usada para transporte no gado. Sua mobilidade constante e conhecimento da caatinga lhes conferiam vantagem tática contra as forças repressoras.

Grupos Paralelos

Além do bando de Lampião, outros grupos cangaceiros atuavam no Nordeste, muitas vezes de forma independente, mas ocasionalmente em aliança. Entre os líderes destacados estavam:

  • Antônio Silvino: Ativo no início do século XX, era conhecido por sua postura menos violenta e por vezes distribuir parte dos saques à população pobre.

  • Jesuíno Brilhante: Operava na década de 1870 entre Paraíba e Rio Grande do Norte, sendo um dos primeiros cangaceiros a ganhar notoriedade.

  • Corisco: Após a morte de Lampião em 1938, Corisco tentou manter a luta armada, mas foi morto pelas volantes em 1940.

Esses grupos variavam em tamanho, organização e métodos, mas compartilhavam o objetivo comum de sobreviver em um ambiente hostil, muitas vezes por meio de saques, extorsão e alianças com coronéis ou coiteiros (aliados que forneciam abrigo e informações).

Forças Militares: As Volantes

Para combater o cangaço, os governos estaduais criaram as volantes, tropas policiais especializadas que conheciam a caatinga e podiam se deslocar livremente pelo sertão, ignorando limites estaduais. Essas forças, muitas vezes compostas por nativos da região, adotavam táticas semelhantes às dos cangaceiros, como emboscadas e perseguições implacáveis. Durante o governo de Getúlio Vargas, especialmente no Estado Novo (1937-1945), a repressão ao cangaço intensificou-se, com ordens para eliminar todos os cangaceiros que não se rendessem.

O confronto mais marcante ocorreu em 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, em Poço Redondo, Sergipe, onde Lampião, Maria Bonita e nove membros de seu bando foram emboscados e mortos pelas volantes, possivelmente após a traição de um coiteiro chamado Pedro de Cândida. As cabeças dos cangaceiros foram decapitadas e exibidas publicamente como troféus, uma prática que chocou a opinião pública e só foi proibida em 1965. A morte de Lampião marcou o início do declínio do cangaço, que se extinguiu completamente com a morte de Corisco em 1940.

Relação com a População

A percepção da população sobre os cangaceiros era profundamente dividida. Para muitos sertanejos, eles eram heróis que desafiavam a opressão dos coronéis, distribuindo ocasionalmente riquezas roubadas aos mais pobres, o que alimentava a imagem de “justiceiros” ou “Robin Hoods” do sertão. Essa visão era reforçada pela ineficiência do Estado em garantir justiça e pela violência dos coronéis, que exploravam a população camponesa. No entanto, os cangaceiros também aterrorizavam comunidades, praticando saques, assassinatos, estupros e mutilações, o que os tornava temidos por muitos.

A relação ambígua com a população era sustentada por coiteiros, que variavam de camponeses a coronéis, oferecendo apoio logístico em troca de proteção ou favores. Essa rede de aliados permitia que os cangaceiros se mantivessem fora do alcance das volantes, mas também criava tensões, já que traições, como a de Pedro de Cândida, eram comuns.

Contexto Político

O cangaço floresceu durante a Primeira República, um período marcado pela concentração de poder nas mãos de oligarquias regionais e pela negligência do governo central em relação ao Nordeste. O coronelismo, aliado à seca e à miséria, criava um ambiente propício à rebelião. A Revolta de Juazeiro, em 1914, liderada por Padre Cícero e coronéis locais contra o governador Franco Rabelo, no Ceará, exemplifica a instabilidade política da época. Durante a década de 1920, movimentos como a Coluna Prestes, que buscava reformar o sistema político, também refletiam a insatisfação popular com a República Velha.

Com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder em 1930, após a Revolução de 1930, o governo intensificou o combate ao cangaço, enxergando-o como um obstáculo à centralização do poder e à modernização do Estado. A Aliança Liberal, que apoiou Vargas, via o cangaço como um símbolo de desordem que precisava ser eliminado. Essa repressão culminou na erradicação do movimento na década de 1940, à medida que o Estado Novo fortalecia as instituições e promovia mudanças sociais, como a migração nordestina para o Sul.

Locais, Regiões e Cidades

Os cangaceiros atuavam principalmente no sertão nordestino, abrangendo estados como Pernambuco, Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Eles se deslocavam pela caatinga, aproveitando seu conhecimento do terreno para evitar as volantes. Cidades como Serra Talhada (PE), onde Lampião nasceu, e Poço Redondo (SE), local de sua morte, são marcos históricos do cangaço. Outras áreas de atuação incluíam:

  • Feira de Santana (BA): Base de Lucas da Feira na década de 1830.

  • Patu (RN/PB): Região de atuação de Jesuíno Brilhante na década de 1870.

  • Mossoró (RN): Conhecida pela resistência ao bando de Lampião em 1927, quando a cidade repeliu um ataque, hoje lembrada pelo Memorial da Resistência.

  • Piranhas (AL): Local onde as cabeças de Lampião e seu bando foram exibidas após a emboscada de 1938.

Objetivos dos Cangaceiros

Os objetivos dos cangaceiros eram complexos e variavam entre os grupos. Para muitos, o cangaço era uma forma de resistência contra a opressão dos coronéis e a negligência do Estado, expressando a insatisfação com a desigualdade social e a concentração fundiária. Lampião, por exemplo, inicialmente buscava vingança pela morte de seu pai, mas sua atuação evoluiu para um misto de banditismo, extorsão e busca por prestígio social. Alguns cangaceiros distribuíam parte dos saques aos pobres, reforçando a imagem de justiceiros, enquanto outros agiam por lucro, poder ou sobrevivência.

O cangaço também funcionava como um “negócio”, oferecendo uma alternativa à vida pacata e miserável do sertão. Jovens ingressavam nos bandos atraídos pela promessa de liberdade, aventura e riqueza, apesar dos riscos. Além disso, os cangaceiros frequentemente estabeleciam alianças com coronéis, vendendo proteção ou atuando como jagunços em disputas locais, o que reforçava sua influência no sertão.

Padre Cícero e o Cangaço

Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), uma figura religiosa e política influente no Nordeste, é frequentemente associado ao cangaço devido a sua atuação em Juazeiro do Norte, Ceará. Conhecido como “Padim Ciço” pelos sertanejos, ele liderou a Revolta de Juazeiro em 1914, um movimento popular contra o governo estadual, apoiado por coronéis e setores da população. Há relatos de que Lampião encontrou Padre Cícero em 1922, durante sua passagem por Juazeiro, onde buscava apoio para combater a Coluna Prestes, um movimento revolucionário liderado por Luís Carlos Prestes.

Segundo algumas fontes, Padre Cícero teria fornecido armas a Lampião, por intermédio do deputado Floro Bartolomeu, em troca de sua ajuda contra a Coluna Prestes. No entanto, Lampião abandonou a missão, preferindo continuar suas atividades no cangaço. Essa relação é controversa: enquanto alguns veem Padre Cícero como um aliado tático dos cangaceiros, outros argumentam que ele desaprovava suas ações violentas, mantendo apenas contatos estratégicos para proteger Juazeiro. Não há evidências conclusivas de uma amizade profunda, mas a influência de Padre Cícero no sertão certamente facilitava alianças com figuras como Lampião, devido ao seu papel como mediador entre o povo e as elites.

Impacto Cultural e Legado

O cangaço deixou um legado duradouro na cultura nordestina e brasileira, imortalizado na literatura de cordel, música, cinema e artes plásticas. Músicas como “Mulher Rendeira” e “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, celebram a estética e a resistência do cangaço. O filme O Cangaceiro (1953), dirigido por Vitor Lima Barreto, ganhou prêmios internacionais e consolidou a imagem de Lampião como ícone cultural. Na literatura, obras como Cangaceiros e Fanáticos (1963), de Rui Facó, e na historiografia, estudos de Eric Hobsbawm e Maria Christina Russi da Matta Machado, analisam o cangaço como um movimento de resistência social.

A memória de Lampião permanece ambígua: para alguns, ele é um herói que lutou contra a opressão; para outros, um bandido cruel. Essa dicotomia reflete as contradições do cangaço, que era ao mesmo tempo uma revolta contra a injustiça e uma prática de violência indiscriminada.

Conclusão

O cangaço foi um fenômeno complexo que reflete as tensões sociais, econômicas e políticas do Nordeste brasileiro durante a Primeira República e o início do Estado Novo. Lampião, com seu carisma e violência, personificou essa dualidade, liderando um bando que desafiava coronéis e autoridades, mas também aterrorizava populações. As volantes, criadas para combatê-los, simbolizavam a resposta do Estado à desordem no sertão. A relação com Padre Cícero, embora não plenamente confirmada, ilustra as conexões entre o cangaço e as dinâmicas políticas regionais. Por fim, o cangaço permanece vivo na memória cultural brasileira, como um símbolo de resistência e contradição.



Referências

  • de Araújo Clemente, M. E. (2007). Cangaço e Cangaceiros: Histórias e Imagens Fotográficas do Tempo de Lampião. Fênix - Revista de História e Estudos Culturais, 4(4), 1-18. Disponível em: https://www.revistafenix.pro.br/revistafenix/article/view/654

  • Souza, Thiago. O que foi o cangaço? Conheça a história e os principais cangaceiros. Toda Matéria. Disponível em: https://www.todamateria.com.br

  • Cangaço: o que foi, origem, líderes. Mundo Educação. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br

  • Cangaço: o que foi, líderes, história. Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br

  • Facó, Rui. (1963). Cangaceiros e Fanáticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira

  • Cangaço. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org

  • Nascimento, José Anderson. Cangaceiros, Coiteiros e Volantes. Disponível em: http://brasilianafotografica.bn.br

  • Cabral, João Firmino. (2009). Lampião: herói ou bandido. Fortaleza: Tupynaquim Editora