Artur Franco/Editora Abril
Manifestação em São Paulo durante o processo eleitoral de 1974 em que Ulysses Guimarães saiu "anticandidato" à Presidência da República; somente uma década depois, chegariam ao término os 21 anos de ditadura no país
A Ditadura Militar no Brasil (1964-1985): Quatro Perspectivas
A ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985, foi um período de repressão, censura e luta pela liberdade. Para narrar essa história de forma neutra e detalhada, apresentamos quatro personagens fictícios que representam ângulos distintos: Major-General Ricardo Almeida, um oficial do regime; Deputado Fernando Costa, um político opositor; Ana Souza, uma jornalista da sociedade civil; e Clara Mendes, uma estudante engajada. Suas vozes, entrelaçadas com fatos históricos, biografias e citações, revelam o peso dos "anos de chumbo".
O Golpe que Mudou Tudo (1964)
Ricardo Almeida (militares): Na noite de 31 de março de 1964, eu, capitão, marchei com as tropas do General Olympio Mourão Filho, de Juiz de Fora ao Rio de Janeiro. "Salvamos o Brasil do comunismo", dizíamos, temendo que as reformas de base de João Goulart, como a reforma agrária, levassem ao caos. Tanques tomaram o Rio e Belo Horizonte, com o General Carlos Luís Guedes apoiando em Minas. Jango tentou resistir em Porto Alegre, mas fugiu para o Uruguai. No Congresso, Auro de Moura Andrade declarou a Presidência vaga, mesmo com Jango no país. Para mim, era o início da ordem. Como disse o General Castelo Branco, primeiro presidente do regime: "Era uma resposta à ameaça vermelha."
Fernando Costa (políticos): Deputado eleito nos anos 1950, vi o golpe como traição à democracia. João Goulart, nascido em 1919, herdeiro de Vargas, propunha reformas contra desigualdades, mas foi tachado de comunista por conservadores e militares. No plenário, tentamos resistir, mas o Ato Institucional nº 1, de 9 de abril, cassou mandatos e suspendeu direitos. Ranieri Mazzilli assumiu interinamente, e Castelo Branco foi "eleito" dias depois. Muitos políticos, como eu, foram perseguidos; Jango morreu no exílio em 1976, sob suspeita de envenenamento.
Ana Souza (sociedade): Em São Paulo, repórter de um jornal pequeno, senti o medo imediato do golpe. Notícias passaram a ser vigiadas, e greves ou manifestações eram "subversivas". Famílias como a minha temiam prisões arbitrárias. Naquele ano, dezenas foram presas ou torturadas, e o silêncio tomou conta.
Clara Mendes (juventude): Aos 20 anos, estudante de Letras na USP, vi o golpe com indignação. Jango prometia mudanças que atraíam jovens como eu, mas a repressão calou nossos debates. A UNE (União Nacional dos Estudantes) foi invadida, e muitos colegas foram presos. Ainda assim, começamos a nos organizar em grupos estudantis, mesmo sob risco.
Os Anos de Chumbo (1965-1974)
Ricardo Almeida: Promovido a major sob Artur da Costa e Silva, que assumiu em 1967, ajudei a consolidar o regime. O AI-2 dissolveu partidos, e o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, fechou o Congresso e suspendeu o habeas corpus. "Combater a subversão", era nossa justificativa. Sob Emílio Garrastazu Médici, de 1969 a 1974, vivi o auge: o "milagre econômico" e a Copa de 1970 nos davam apoio popular. No DOI-CODI, que ajudei a criar em 1970, enfrentamos guerrilhas como a do Araguaia, esmagada entre 1972 e 1974.
Fernando Costa: O AI-5 foi devastador. Cassado em 1968, fui exilado. O regime criou a ARENA, pró-governo, e o MDB, oposição controlada. Em 1969, uma junta militar assumiu após o derrame de Costa e Silva, que morreu naquele ano, elegendo Médici. A censura calava vozes; escrevíamos cartas clandestinas. A morte de Carlos Marighella, líder da ALN, em emboscada em 1969, mostrava a caça aos dissidentes.
Ana Souza: Para a sociedade, era terror. Em 1971, meu filho, estudante, desapareceu após ser preso, como Stuart Angel, filho de Zuzu Angel, que gritava: "Quero meu filho, vivo ou morto!" Zuzu morreu em 1976, em um "acidente" suspeito. Em 1975, Vladimir Herzog, jornalista da TV Cultura, foi torturado e morto no DOI-CODI; a farsa do "suicídio" levou milhares ao seu enterro, em protesto silencioso. A censura cortava músicas, peças e jornais – o Estadão publicava receitas no lugar de matérias.
Clara Mendes: Na USP, a repressão endureceu. Em 1968, a Batalha da Maria Antônia, entre estudantes da USP e do Mackenzie, deixou mortos e feridos. Juntei-me à resistência estudantil, distribuindo panfletos, mas o medo crescia. Alguns amigos ingressaram em guerrilhas, como a ALN ou o PCdoB no Araguaia. Eu hesitava, dividida entre lutar e sobreviver. Em 1971, fui detida brevemente e interrogada, uma experiência que marcou minha vida.
A Abertura e o Caminho para a Democracia (1975-1985)
Ricardo Almeida: General sob Ernesto Geisel, de 1974 a 1979, apoiei a "abertura lenta, gradual e segura". Geisel, nascido em 1907, demitiu radicais como Sylvio Frota e revogou o AI-5 em 1978. Mas a dívida externa explodiu na era de João Figueiredo. A Lei da Anistia de 1979 perdoou crimes políticos, protegendo militares como eu e permitindo o retorno de exilados.
Fernando Costa: Voltei do exílio em 1979, pelo MDB. As Diretas Já, em 1983 e 1984, levaram milhões às ruas, mas o Congresso rejeitou eleições diretas. No Colégio Eleitoral, Tancredo Neves, nascido em 1910, venceu Paulo Maluf em 15 de janeiro de 1985, com 480 votos contra 180, pela Aliança Democrática. Tancredo era a esperança, mas morreu antes da posse; José Sarney assumiu, encerrando o regime.
Ana Souza: A sociedade misturava esperança e dor. Protestos como o de Herzog e as Diretas Já nos deram voz, mas o medo persistia. Centenas, como meu filho, nunca voltaram. As cicatrizes da ditadura doíam, mesmo com a redemocratização.
Clara Mendes: As Diretas Já me encheram de esperança. Participei dos comícios, gritando por democracia. A vitória de Tancredo, mesmo indireta, parecia um novo começo. Mas as perdas – amigos presos, torturados ou mortos – pesavam. Continuei na luta, agora por memória e justiça.
Reflexão Final
Ricardo Almeida via o regime como missão patriótica; Fernando Costa lutou pela democracia; Ana Souza sofreu as dores da repressão; Clara Mendes representou o idealismo jovem. Juntos, mostram um Brasil dividido, onde a repressão custou vidas e liberdades. Lembrar essas histórias é essencial para que nunca se repitam.
Notas de Rodapé
Relatório da Comissão Nacional da Verdade, 2014. Documenta 434 mortos ou desaparecidos e milhares de casos de tortura.
Skidmore, Thomas E. The Politics of Military Rule in Brazil, 1964-1985. Oxford University Press, 1988.
Gaspari, Elio. A Ditadura Envergonhada e A Ditadura Escancarada. Companhia das Letras, 2002.
Arquivos do DOI-CODI e depoimentos coletados pela Anistia Internacional, 1970-1980.
Biografias de João Goulart, Zuzu Angel, Carlos Marighella e Tancredo Neves, disponíveis em arquivos históricos e publicações acadêmicas.
