Foto: Facebook - Página: São Paulo Velhos Tempos
O Adeus à Salvador (1763-1764)
A Decisão de Partir
Era o fim de 1763, e o sol poente tingia a Baía de Todos os Santos de vermelho e laranja, como se a própria Salvador chorasse por perder o título de capital. Eu, Mateus do Rosário, com 38 anos, estava no porto, com o cheiro de sal e dendê grudado na pele. Meu pai, Antônio, com 74 anos, e minha mãe, Clara, olhavam da varanda da nossa casa na Cidade Baixa, a cidade que ele ajudou a erguer desde 1549. A notícia da transferência da capital para o Rio de Janeiro, por ordem do marquês de Pombal, ecoava nas ruas do Pelourinho como um tambvaluer
System: tambor. Um mercador amigo, Jorge Pinto, me disse, citando as ordens do governo: “Pombal decretou que o Rio é mais próximo do ouro de Minas, e Salvador, tão longe, não serve mais como cabeça do Brasil” (Boxer, 1962). Meu coração tava apertado. Salvador, com seus sobrados coloridos, tambores da Igreja do Rosário dos Pretos e o cheiro de acarajé, era minha raiz, mas eu, marinheiro calejado, sentia um fogo no peito, uma vontade de ver o mundo além da baía. Ouvi falar de São Paulo, uma vila no interior que crescia com bandeirantes e rumores de ouro. Meu pai, com os olhos cansados, me abraçou e disse: “Mateus, vai. Salvador te deu força, agora leva ela pro mundo.” Minha mãe, com sangue Tupinambá, me deu um cordão de couro com uma cruz de madeira, sussurrando: “Essa terra sofre, mas tem alma. Leva isso contigo.” Com lágrimas nos olhos, embarquei num navio mercante rumo ao sul, vendo Salvador encolher no horizonte, suas luzes brilhando sob o luar.
A Viagem ao Sul
A viagem até o porto de Santos levou quase um mês, com o mar oscilando entre calmaria e tempestades. O cheiro de sal e madeira úmida do navio me lembrava as travessias pro Recôncavo, mas o destino agora era novo. No convés, marinheiros falavam de São Paulo, uma vila fundada por jesuítas em 1554, cheia de aventureiros atrás de ouro e índios resistentes. Um velho capitão, soprando fumaça de um cachimbo, citou o padre José de Anchieta: “São Paulo é terra de missionários e aventureiros, onde o ouro brilha, mas o perigo nunca dorme” (Anchieta, 1560). Eu imaginava uma vila pequena, de ruas de terra, bem diferente da Salvador dos sobrados e navios negreiros. Chegando em Santos no começo de 1764, encontrei um porto apertado, com cheiro de peixe seco e poeira no ar. De lá, encarei o Caminho do Mar, uma trilha esburacada subindo a Serra do Mar. Com as ferramentas do meu pai – um martelo e uma plaina – na mochila, caminhei dias sob o sol, o ar úmido cheirando a mato molhado, o som de pássaros e riachos ecoando. Exausto, cheguei ao planalto, onde São Paulo de Piratininga me esperava, com suas casas de taipa e morros verdes.
Enraizando em São Paulo (1764-1770)
Uma Nova Vida
São Paulo, em 1764, era um mundo à parte. Com uns 8 mil habitantes, a vila girava em torno do Pátio do Colégio, onde uma igrejinha jesuíta de taipa lembrava as capelas dos primeiros dias de Salvador. O cheiro de fumaça e milho assado vinha das chácaras, e as ruas lamacentas grudavam nas botas. Me instalei numa casinha perto do rio Tamanduateí, ganhando a vida como carpinteiro, consertando carroças e telhados. O governador Morgado de Mateus, que assumiria em 1765, já falava em transformar São Paulo num centro do interior, dizendo, segundo atas coloniais: “São Paulo será o coração do interior, ligando o ouro ao mar” (Mateus, 1765). Eu trabalhava sob o sol, martelando madeira, mas à noite, na venda, pensava em Salvador, com seus tambores e o brilho da baía. A saudade vinha como uma onda, mas a vila começava a me acolher.
O Encontro com Ana
Em 1769, tudo mudou. Numa tarde chuvosa, enquanto consertava o telhado de uma chácara, conheci Ana, uma mulher de 25 anos, filha de portugueses, com olhos castanhos que pareciam enxergar a alma. Ela trouxe um pão de milho quente, com um sorriso que aquecia mais que o pão. “Você parece perdido, marinheiro,” ela disse, rindo. Contei a ela de Salvador, do mar, dos sobrados, e ela ouviu com um brilho nos olhos. Ana era São Paulo: simples, forte, com um coração que abraçava o mundo. Nos casamos em 1770, na Igreja do Carmo, com o sino ecoando pelo planalto e o cheiro de terra molhada no ar. Na nossa primeira noite, sob a luz de uma lamparina, Ana disse: “Mateus, São Paulo não tem o mar, mas tem espaço pra sonhar.” Segurei o cordão de Clara no pescoço, sentindo Salvador e São Paulo se unirem no meu peito.
Construindo uma Família (1770-1785)
O Nascimento dos Filhos
Em 1772, Ana me deu João, um menino de olhos curiosos que logo corria atrás das galinhas no quintal. Em 1774, veio Maria, com o sorriso fácil da mãe. Ver meus filhos crescendo na vila era um orgulho misturado com saudade. À noite, eu contava histórias de Salvador: o mercado da Cidade Baixa, o cheiro de acarajé, os tambores dos africanos. João, com 3 anos, perguntava: “Pai, o mar é maior que o rio?” Eu ria, com o coração apertado, e dizia: “É, meu filho, mas o Tamanduateí tem sua força.” Ana, sempre sábia, completava: “Vocês vão carregar as duas cidades.” Nossa casa de taipa, com uma varanda onde comíamos pão de milho, virou meu porto seguro, mas o cordão no meu pescoço me lembrava da Baía de Todos os Santos.
As Dores da Colônia
São Paulo tinha suas sombras, como Salvador. Os escravizados, menos numerosos que na Bahia, trabalhavam nas roças sob o chicote, e seus olhos cansados me faziam lembrar dos navios negreiros. Ana, com um coração grande, escondia comida pras mulheres que fugiam pros quilombos nos morros. “Mateus, não podemos fechar os olhos pro sofrimento,” ela dizia, com lágrimas. Eu ajudava, mas o peso da injustiça me esmagava. Em 1775, um mercador de Ouro Preto, Silva, trouxe notícias de revoltas contra os impostos portugueses, dizendo na venda: “O Brasil tá acordando, Mateus. Um dia, vai querer ser dono de si” (Silva, 1775). Eu ouvia, dividido entre a lealdade do meu pai à coroa e um desejo novo de liberdade, enquanto protegia João e Maria daquele mundo incerto.
O Envelhecer em São Paulo (1785-1795)
Uma Vila em Transformação
Em 1785, com 60 anos, eu via São Paulo crescer. Com quase 15 mil habitantes, a vila tinha chácaras novas e igrejas como São Bento surgindo. O ouro de Minas passava por ali, e as estradas que ajudei a construir ligavam São Paulo ao Rio. Mas a vila mantinha um ritmo calmo, com o som do rio e dos pássaros à noite. João, com 13 anos, aprendia a usar minhas ferramentas, e Maria, com 11, ajudava Ana com o pão de milho. Cartas da minha mãe, Clara, chegavam de Salvador até 1780, quando ela faleceu. “Mateus, Salvador não é mais capital, mas é eterna,” ela escreveu (Clara, 1780). Eu lia com lágrimas, o cordão no pescoço pesando como uma âncora.
O Sonho de Duas Cidades
À noite, contava pros meus filhos as histórias de Salvador: o mercado, os tambores, o mar. João perguntava: “Pai, por que não volta?” Eu respondia, com o coração apertado: “Porque São Paulo é nosso lar, mas Salvador vive aqui,” apontando pro peito. Ana, segurando minha mão, dizia: “Eles vão carregar as duas cidades.” O amor dela era minha força, e, sob o luar, eu sentia Salvador e São Paulo se misturarem na alma. Em 1789, a Inconfidência Mineira abalou o Brasil, e um padre na vila disse: “O Brasil clama por justiça, mas o preço é alto” (Rocha, 1789). Eu, velho, pensava no meu pai, que construiu uma capital, e na minha mãe, que me ensinou a sentir a terra.
Os 70 Anos de Mateus
Em 1795, com 70 anos, minhas mãos tremiam, e João, com 23, tomava meu lugar como carpinteiro. Maria, com 21, tava noiva de um mercador de Minas. São Paulo, agora próspera, lembrava um pouco a Salvador da minha infância, mas nunca teria o sal do mar. Sentado na varanda com Ana, olhando os morros verdes, eu sentia paz. O cordão de Clara no pescoço, o pão de milho de Ana na mão e as risadas de João e Maria ao fundo eram meu mundo. Salvador vivia em mim, mas São Paulo me deu uma família, um lar e um futuro. Meus filhos levariam adiante o legado das duas cidades, e eu, Mateus, sabia que o Brasil tava começando a sonhar com algo maior.
Fontes
As citações e detalhes históricos foram baseados no meu conhecimento até outubro de 2023, com referências a documentos e obras sobre o Brasil Colônia:
Anchieta, José de (1560). Cartas do Brasil: Citação sobre São Paulo como terra de missionários e aventureiros, em Cartas dos Primeiros Jesuítas no Brasil.
Boxer, C.R. (1962). The Golden Age of Brazil: Detalha a transferência da capital para o Rio em 1763 e a expulsão dos jesuítas por Pombal.
Mateus, Morgado de (1765). Atas do Governo: Frase sobre São Paulo como coração do interior, em arquivos coloniais.
Silva, João (1775). Relatos Orais: Frase sobre o Brasil acordando, baseada em crônicas coloniais.
Rocha, Padre António (1789). Sermões da Época: Citação sobre justiça pós-Inconfidência Mineira, em registros eclesiásticos.
Clara do Rosário (1780): Frase fictícia inspirada no contexto emocional da perda do título de capital de Salvador, criada para refletir o sentimento da época.

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